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Março 2013

 

1 - A antologia bilíngue La poésie du Brésil: Anthologie du XVIe au XXe siècle, que traz 10 poemas de Drummond, lançada no final de 2012 pela editora Chandeigne, foi tema de dois encontros em Paris:

- 15e Printemps des Poètes - Les voix du poème. A leitura de poemas foi feita por Sara Darmayan no Salão de Leitura Jacques Kerchache do Musée du Quai Branly, no dia 17 de março, às 16h;

- 33e Salon du Livre. A apresentação e a leitura de poemas foram feitas por Max de Carvalho e Anne Lima, no "Stand du Brésil": Salon du Livre, Porte de Versailles, Pavillon 1, Stand U61 (Embaixada do Brasil), no dia 22 de março, às 14h30.

Disponível em:  http://www.printempsdespoetes.com/userfiles/File/2013/VoixDuPoeme_Programme-selectif.pdf, acesso em 9 mar. 2013, e em:  http://sistemas.mre.gov.br/kitweb/datafiles/Paris/fr/file/Atual%20-%20SALON%20DU%20LIVRE%202013%20-%20PROGRAMMATION%20LITTERAIRE.pd, acesso em 22 mar. 2013.

 

2 - RUA DO OLHAR    [década de 1940]

 

Entre tantas ruas  

que passam no mundo,  

a Rua do Olhar,  

em Paris, me toca.  

 

Imagino um olho

calmo, solitário,

a fitar os homens

que voltam cansados.

 

Olhar de perdão

para os desvarios,

de lento conselho

e cumplicidade.

 

Rua do Olhar:

as casas não contam,

nem contam as pedras

caladas no chão.

 

Só conta esse olho

triste, na tarde,

percorrendo o corpo,

devassando a roupa...

 

A luz que se acende  

não te ilumina.  

O brilho sem brilho,  

a vaga pestana

 

desse olhar imóvel

oscilam nas coisas  

(são apenas coisas  

mas também respiram).

 

Pela noite abaixo    

uma vida surda    

embebe o silêncio,  

como frio no ar.

 

Sinto que o drama  

já não interessa.

Quem ama, quem luta,

quem bebe veneno?

 

Quem chora no escuro,

quem que se diverte  

ou apenas fuma  

ou apenas corre?

 

Uma rua – um olho

aberto em Paris

olha sobre o mar.

Na praia estou eu.

 

Vem, farol tímido,

dizer-nos que o mundo

de fato é restrito,

cabe num olhar.

 

Olhar de uma rua  

a quem quer que passe.

Compreensão, amor  

perdidos na bruma.  

 

Que funda esperança

perfura o desgosto,  

abre um longo túnel  

e sorri na boca!  

 

E sorri nas mãos,  

no queixo, na rosa,

no menor dos bens,  

de ti, meu irmão!  

 

ANDRADE, Carlos Drummond de. José, in Poesia Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2002. p. 102-104.

 

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