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Fevereiro 2013

 

 PARA CINQUENTÕES      [1952]

 

Carnaval, carne dada ao verme

(diz a falsa etimologia),

como pode o cronista inerme

cronicar em plena folia?

 

Como esquivar-se a teu império

que é serrano em Vila ou Mangueira,

se em mim ri aquilo que é sério,

e séria, mesmo, é a brincadeira?

 

Carnaval, já não sou tão moço

para esmilinguir-me no frevo

e sair de guizo ao pescoço

(riso, quatripétalo trevo).

 

Também inda não sou tão velho

que não ouça o ronco da cuíca.

E da razão o bom conselho

(má rima) não me mortifica.

 

Entre duas águas, meu caro,

meio-lá-meio-cá me sinto

como um animal semi-raro

divagando no labirinto.

 

Carnaval, magia do samba!

Fígado, fiscal do consumo...

Para dançar na corda bamba

tanto faz, serpentina, o rumo.

 

Não fugirei para a montanha

nem pescarei na Marambaia,

pois ante confusão tamanha,

quedemos (Posto 6) na praia,

 

perto-longe da farra, ouvindo

e vendo, imaginando, enquanto

um carnaval muito mais lindo

dentro de nós eleva seu canto;

 

carnaval de delícias longas

e cabriolas arlequinais,

feito de caras songamongas

se esbaldando no nunca-mais;

 

carnaval antigo e futuro,

baile de outro Municipal,

ou Praça 11 acesa no escuro

de saudade do carnaval.

 

E é o melhor de tudo, afinal.

 

ANDRADE, Carlos Drummond de. Viola de bolso I, in Poesia Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2002. p. 354-356.

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